Modelo de Maturidade
Seis estágios de capacidade arquitetural. Cada um é definido pelo que a pessoa decide sozinha, não pelo que ela sabe explicar.
A distinção importa. Conhecimento declarado e capacidade divergem muito nesta profissão: é comum alguém explicar bem consistência eventual e nunca ter decidido, sob pressão, se um caso concreto a tolera.
Dois eixos diferentes
Este modelo mede capacidade. Os sete níveis do percurso organizam conteúdo. Não são a mesma coisa e não avançam juntos.
Ler o Nível 04 não coloca ninguém no estágio 4. Conteúdo é insumo; capacidade vem de decidir, errar, registrar o porquê e revisar. O percurso encurta o caminho — não o substitui.
Na prática, alguém no estágio 3 costuma se beneficiar mais de reler o Nível 02 aplicando ao próprio sistema do que de avançar para o Nível 05.
Os estágios
Estágio 1 — Orientado a Código
Decide: como implementar dentro de um módulo já definido. Horizonte: a tarefa atual. Negocia com: ninguém — recebe o recorte pronto.
Escreve código correto e legível. Aplica padrões quando reconhece o problema. Não decide onde as fronteiras ficam.
Sinal de transição: começa a perceber que a dificuldade da tarefa vem de uma decisão estrutural anterior, e consegue nomeá-la.
Estágio 2 — Orientado a Design
Decide: estrutura de módulos, interfaces e direção de dependência. Horizonte: a feature, algumas semanas. Negocia com: o próprio time.
Desenha fronteiras dentro de um sistema. Justifica por que uma dependência aponta para um lado. Reconhece estrutura degradando antes que o custo apareça no roadmap.
Sinal de transição: começa a esbarrar em limites que não são de código — o banco, a fila, o processo de implantação.
Estágio 3 — Orientado a Sistemas
Decide: componentes, contratos, armazenamento e topologia de um sistema. Horizonte: o sistema, alguns trimestres. Negocia com: produto e times vizinhos.
Vai de requisitos a arquitetura de alto nível com estimativa de capacidade. Identifica gargalo antes de o sistema existir. Escolhe entre síncrono e assíncrono com argumento.
Sinal de transição: começa a tomar decisões cujo custo aparece em outros times, e percebe que o argumento técnico sozinho não basta.
Estágio 4 — Orientado a Arquitetura
Decide: trade-offs entre atributos de qualidade, sob restrição de custo e prazo. Horizonte: o sistema e sua evolução, um a dois anos. Negocia com: liderança técnica e stakeholders de negócio.
Deriva arquitetura de números declarados — SLO, RTO, orçamento — em vez de preferência. Registra decisões com o contexto que permite revê-las. Sabe dizer não a complexidade que não se paga, inclusive à que ele mesmo propôs antes.
Sinal de transição: passa a enxergar duplicação e incoerência entre sistemas, não dentro de um.
Estágio 5 — Orientado ao Corporativo
Decide: portfólio, capacidades, padrões e caminho entre estado atual e alvo. Horizonte: o conjunto de sistemas, dois a cinco anos. Negocia com: quem controla orçamento e prioridade.
Lê um cenário de aplicações e identifica capacidade duplicada. Constrói arquitetura de transição em etapas que entregam valor isoladamente. Estabelece padrões com caminho de exceção.
Sinal de transição: percebe que a restrição dominante deixou de ser técnica e passou a ser organizacional.
Estágio 6 — Orientado a Estratégia
Decide: direção técnica, estrutura de times e onde a organização investe capacidade. Horizonte: a organização, anos. Negocia com: a direção da empresa.
Trata a lei de Conway como instrumento, não como observação: propõe mudança organizacional para viabilizar arquitetura. Mede resultado arquitetural em vez de argumentar por ele. Sustenta coerência sem centralizar decisão.
Como usar isto
Localize-se pela pergunta: qual foi a decisão mais consequente que você tomou sozinho nos últimos seis meses, e de que tipo ela era?
A resposta costuma ser um estágio abaixo do que a autoavaliação sugere, porque tendemos a nos medir pelo que entendemos e não pelo que decidimos.
Duas advertências. Não há mérito em estar no estágio 6 — há adequação ao papel; uma empresa de trinta pessoas raramente precisa dele. E os estágios não são exclusivos: alguém no estágio 5 continua tomando decisões de estágio 2, e continua precisando fazê-las bem.